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Marília da Rocha e um blog que vem da arte

Nascida nas veias pulsantes da política e da comunicação Pernambucana – é neta de Jader de Andrade, ex vereador e ex prefeito de várias cidades da Zona da Mata e filha de Jader de Andrade Filho, radialista de extensão em todo estado. Marília, de 18 anos, desenvolveu seus traços culturais em andanças políticas, fazendo campanha de porta em porta, assim começou a absorver cada expressão de pessoas que via pela frente e a fotografar cada olhar. Depois observou que com palavras e fotografias, podia se expressar virtualmente e se dedicar a comunicação virtual com pitadas de revoluções feministas e astrológicas e criou o blog http://www.batmangypsy.blogspot.com.br/ que hoje conta com uma legião de leitores diários que se dividem entre ler artigos feministas e resenhas de filmes, entre outros assuntos randômicos e versáteis.

Marília da Rocha Fotografia

Marília da Rocha: Todo meu começo foi um processo contínuo e ainda está em andamento. Com a fotografia, a política foi essencial e ainda é. Em tempos de política, vou de porta-em-porta mas não para defender algum ideal político ou impor algum candidato, mas para conhecer cada olhar e rosto diferente e captar cada expressão e passar essa expressão pra tela. Já com o blog, que foi o que me deu visibilidade, eu comecei querendo colocar meu hobbie em webdesigner em prática e os outros assuntos foram fluíndo. Aliás, todo o processo foi um fluindo, o fluxo natural. Acredito que essa é a parte inicial com qualquer trabalho, o comprometimento mas sem querer nada em troca ou procurar alguma troca.

Cultparanaocults: Suas publicações no blog são aleatórias e não seguem uma linha de tema, como são escolhidas?

Marília da Rocha: Realmente acredito que esse seja o diferencial do blog. Eu só escrevo publicações que me fazem bem, bem pra alma e pra o coração. Penso em coisas bonitas que devem ser lidas ou coisas importantes, que devem ser ressaltadas, desde opiniões próprias até técnica de não utilidade pública para sobreviver as segundas feiras. Acho que é sobre isso que é formado um blog, vejo milhares de blogs que se resumem a testar produtos ou postar looks do dia. Não que não seja importante, várias vezes já recorri a blog que testam produtos pra comprar, mas algo repetitivo é chato. Também há a carência de blogs com resenhas verdadeiras sobre filmes, que abordem desde a trilha sonora até o sapatinho escondido do lado esquerdo da tela do autor e não puxe sardinha pra nenhum lado.

Cultparanaocults: Sobre a fotografia, você costuma a usar lentes caseira como ensina no blog?

Marília da Rocha: Na maioria da vezes, sim. Para não dizer quase sempre. Tiro fotos com uma fisheye adaptada de visualizador de porta – como ensino no blog – e recentemente, fui ao quintal da minha vizinha e vi vários insetos bonitos, mas não tinha uma lente macro para fotografar, foi daí que surgiu a ideia de fazer uma caseira. Eu tinha visto um tutorial sobre fundo de lente, mas tive dificuldade com uma 18-55 e resolvi fazer a minha própria com fones de ouvido e deu certo. Teve recordes de acessos no blog também, isso foi o que teve de melhor, vê minha ideia de expandindo.

Foto por Marília da Rocha

Marília da Rocha Fotografia

Cultparanaocults: A vivência na zona da mata, uma das regiões mais culturais de Pernambuco, influenciou o blog?

Marília da Rocha: Não só o blog como as fotografias, de uma forma absurda. Recentemente, teve um evento chamado KAOS para exaltar a cultura local e me inspirou absurdamente. Para completar, ganhei um livro do Silêncio Interrompido, que é feito de um grupo de poetas locais. Todos os poemas, me inspiraram para um ensaio futuro e para uma série de ensaio que planejo fazer em grande escala com fotógrafos recifenses, inclusive o Marques de Paolo. Posso dizer que toda a atmosfera de cores, caboclinhos, sorrisos e purpurinas foram de cunho essencial para o meu crescimento artístico. Goiana tem músicos como Lucas Mendonça e “Mago” que sempre fazer shows pela cidade e não tem como se contagiar com aquela atmosfera musical, a inspiração é tão natural quanto nascer. Vai fluindo a cada música, um fluxo.

Marília da Rocha Fotografia

Cultparanaocults: Você posta de assuntos culturais a moda, como se interligam entre si?

Marília da Rocha: A moda está interligada na literatura, no cinema, isso que me fascina nela. Por exemplo, quando Machado de Assis caracteriza Capitu, ele usa os trajes. Os trajes mostram a ascensão social antes mesmo de sabemos que ela emergiu socialmente. A moda é arte, assim como a música, assim como as fotografias, assim como as letras e tudo se interliga entre si e é isso que me fascina e isso que eu gosto de expor no blog. Até uma dieta, uma comida, é uma cominação de alimentos que por elementos se transforma e se transforma em outro e é a arte do paladar. O mundo é uma encruzilhada de arte que se costura entre si e eu procuro trazer isso para as pessoas que visualizam o blog.  Também coloco posts sobre padrões de beleza da sociedade, entre outras coisas, para se mostrar que as vezes, tentam definir o que é a arte o bonito por nós.

Cultparanaocults: Antes de ser dona do BatmanGypsy você era escrevia para vários blogs de cinema, astrologia, beleza e sexo porque desistiu e desistiu criar o seu próprio?

Marília da Rocha: Me sobrecarregava bastante e era exigido muito de mim, ainda mais que não me dou bem com regras. Participava de 5 blogs de cinema, 3 de astrologia, 2 blogs de beauty. No final da semana, não tinha tempo para quase nada e ainda vendia layouts. Não conseguia ter uma vida social. Mas foi uma parte importante e crucial. Fiz amigos e conquistei um nome na “praça” e hoje meu nome sempre está relacionado ou com o cinema em si ou com astrologia. Já tive a honra que se palestrante no AstrosGia e ter o nome colocando no HallIn junto com a Alisson Tarol em Recife, já tive o prazer de ser convidada ao mercado das Hennas com Sujan, o que foi importante pra mim. Nas redes sociais de cinema, sou conhecida como Marília Coppola (apelido que ganhei por ter repulsa da diretora e atriz). Então, fazendo um balanço dessa época, custou minha vida social mas foi bem interessante, me deu credibilidade e visibilidade. Hoje posso dizer que sou conhecida até no mundo do webdesigner, cujo eu fazia para os blogs que participava e até hoje presenteio minhas amigas com templates. Se o BatmanGypsy tem as visitas que tem hoje – que são bastante – foi graças ao nome que conquistei.

Marília da Rocha Fotografia

Cultparanaocults: Você também atuou no extinto blog Feministaeputas.com. Porque não aborda mais o sexo no seu blog pessoal?

Marília da Rocha: Feministas e putas também foi uma grande fase da minha vida. Pude viajar ao Rio e a Petrópolis e ver as causas de perto, mas não acho mais relevante. Ainda existe grupos no facebook para isso e já pensamos em fazer outro blog, mas a ideia havia se perdido. Não pelo o tabu em si, mas no meu blog pessoal, quero que crianças, adolescentes, idosos, recém nascidos (haha) aprendam o que é fotografia, o que é cinema de verdade – sem ser blockbuster – o que é feminismo, o que é ilustração, artes que estão interligadas ao sexo de outra forma mas que não vem ao caso a divulgação. Tem textos lá sobre ser puta na cama, mas não tem sobre o sexo realmente em si, o sexo oral de verdade. Porém, continuo escrevendo sobre ele para outras mídias, quando dá tempo. Recentemente escrevi para uma página no VK.com um artigo chamado “O pênis não é dele, o pênis é dela” inspirada na Absurda Senhorita C, que foi bastante comentado. Só não sei se o tradutor traduziu certo para russo (risos).

Cultparanaocults: Quais seus próximos projetos?

Marília da Rocha: Depois do vestibular, pretendo me focar na fotografia. Será um ensaio realizado com ruivas do Papo Acobreado Pe, que são modelos belíssimas e ruivas tenho também um projeto de um simpósio na ESPM do Rio de Janeiro, no qual foi convidada. Também tenho planos de um projeto com o Matheus Luiz, um dos meus modelos contribuintes e contribuintes para trilhas sonoras, um projeto com animais, especificamente cachorros.

Cultparanaocults: E os vlogs no youtube? Recentemente assisti um seu sobre pornochanchada. Aliás, você realmente defende a pornochanchada?

Marília da Rocha: Eu ainda não divulguei o vlog mas pretendo, não acho que agora seja o momento certo. Mas sobre a pornochanchada, me irrita esse preconceito ao redor dela, como eu exalto bem no video, foi um período de crescimento do cinema brasileiro. Sem ele, não estaríamos no patamar que estamos hoje. Podemos ter fracos roteiros, mas grandes produções. Também foi um período de evolução contra uma sociedade patriarcal, a mulher era dona do seu corpo e sabia o que queria e o que fazia.  Sem falar que foi um libelo contra a ditadura do país que se instaurava na época. Profundo e cruel preconceito a respeito do cinema brasileiro daquela época. No cinema italiano do mesmo período, ninguém ousava chamar pornochanchadas os filmes estrelados por Lando Buzzanca, Ugo Toghazzi, Rossana Podestá. Esses são critérios de julgamento de uma sociedade reacionária da década de setenta. Lembrando ainda que a Embrafilme financiava, mas era ressarcida pelo retorno de bilheteria. E bilheteria alta, que era um escapismo pra o povo que sofria com a ditadura.

Marília da Rocha Fotografia

Cultparanaocults: Como é seu ritmo de trabalho no blog, quantos filmes assiste por semana?

Marília da Rocha: Tem semanas que assisto 8 e tem semanas que assisto nenhum, por isso procuro não dedicar o blog só a questão da sértima arte em si. Mas procuro sempre atualizar, quando é época do Oscar e os filmes são lançados no Brasil em cima da hora. Acompanho também os outros prêmios internacionais, SAG Awards, Globo de Ouro, BAFTA, contando como foi a noite da cerimonia e quais foram os atores e filmes premiados.

Cultparanaocults: E como é seu ritmo fotográfico?

Marília da Rocha: Lento e vagaroso. Procuro pesquisar por fontes, fotos, ler e imaginar cenas, ouvir músicas e imaginar cenas, ficar imóvel na janela do carro, beijar na boca, tudo é fonte de inspiração, absolutamente tudo, depois vou juntando os pedacinhos e procuro achar alguém que pose com a mesma intensidade que eu desejo e que imaginei.

Marília da Rocha Fotografia

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Rafael Coutinho e seus quadrinhos

Rafael Coutinho pertence à realeza dos quadrinhos brasileiros – é filho do grande Laerte. Desenvolveu uma voz e traço próprios, elegantes, com um forte acento filosófico, crítico e social. Seu conto gráfico (uma ‘novela gráfica’ curta e rasteira) videogame, mostrado aqui, é de um alto teor metafísico, e nos faz pensar muito sobre o tempo em que vivemos – uma era de revolução tecnológica, que segue a revolução feminista, que seguiu a revolução industrial.

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Rafael: Queria fazer uma história com o tema do game, ou uma série delas. Esse negócio de contar histórias passa por duzentos prismas pra mim, tem a ver com grana, umas propostas interessantes (nesse caso o convite da Piauí), com desejos passados, obsessões, vontades gráficas, um fluxo de raciocínio de trabalhos anteriores, algo que vi de alguém que acende uma fagulha criativa, então sempre que tento explicar, fica meio longe do que aconteceu de fato. E tinha essa vontade de usar uma estrutura narrativa pré-determinada, um ambiente ou meio pra contar outra sub-história antagônica ao meio em si, ou que trouxesse essa estranheza das relações sociais. Joguei um jogo de rede uma vez na casa do amigo e quadrinista Caeto, um jogo de zumbis, e ficamos conversando com um moleque de uns 10 anos nos EUA enquanto matávamos aquele contingente assustador de monstros. E fiquei com isso na cabeça: quem era o garoto, quem éramos nós pra ele, e a doideira disso existir, essa plataforma maluca de interação entre pessoas. É muito comum hoje em dia, e o fato de ser no meio de uma carnificina doentia envolvendo um moleque de dez do outro lado do mundo me impressionou.

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©rafael coutinho, Videogame

Veja a história completa, originalmente publicada pela revista piauí.

a: qual foi sua formação – artística, e outras?

R: Fiz artes plásticas na UNESP, alguns cursos fora de pintura, escultura. Trabalhei muito tempo com animação também, aprendi muito com animadores mais experientes. Estudei francês e inglês, roteiro em cursos e com um grupo de amigos por dois anos. Aprendi muito na Base-V, coletivo de design e arte que montei com amigos da faculdade, três caras impressionantes. Mas foi mais trabalhando mesmo, fazendo projetos longos em parceria com gente do cinema, de galeria, artistas de rua, escritores. Dentro da minha casa sempre existiu arte, da parte da minha mãe também. Me peguei pensando nisso esses dias, no perfil dos meus pais e o quanto fazer bem foi, de uma forma não imposta ou claramente dita, algo que ambos tinham (meu pai e mãe). Minha mãe é obsessiva, estuda compulsivamente por prazer, é médica. Ama medicina e política, sempre leu muito, é um furacão no mundo, uma força da natureza (pro mal e pro bem, a mulher é intensa). Meu pai era do tom mais natural, também muito culto, mas passava essa onda mais do saber curioso. Cada um do seu jeito, ambos celebravam em casa essa coisa de “interessar-se pelas coisas com afinco”. Tenho um filhote agora, então tenho pensado nisso, se herdei esse “prazer pelo conhecimento”. Tomara. Meus pais são brilhantes no que fazem, então acho que tinha essa pressãozinha em casa, não dita. Meu irmão tinha isso também, sentia essa necessidade de fazer muito bem feito o que quer que fosse, estudar, essa obsessividade. Comecei a trabalhar cedo, com 16, por culpa de classe mesmo, queria ser independente e ter meu dinheiro. Sempre tive amigos duros de grana ou pobres mesmo, filhos de porteiro e faxineiras, minha vó morava na entrada do morro do Moscoso, em Vitória. Então também teve isso, sempre convivi com gente de todas as classes, e com pais de esquerda, militantes, engajados. Sei que alguma coisa saiu daí também, o apreço e valor do trabalho, de dar valor pro que eu tinha. E claro, tinha muita revista de quadrinhos em casa.

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©rafael coutinho

a: Você tem algum tema que te ocupa?

R: Não sei se tenho UM tema, mas consigo ver alguns que se repetem, como a solidão, a masculinidade, a violência física, a carência física, o estar sozinho e querer algo obsessivamente. Durante um período a água apareceu muito, não sei bem porquê. Relação homem-mulher, questões de desacordo, alcolismo. Hahaha, colocado assim, parece muito deprê, mas acho que procuro pelas questões morais também, certo e errado, se permitir, a busca por algum tipo de inocência, redenção, leveza, a alegria que é resposta a uma tristeza anterior. Mas não acho que dure muito tempo, tento muito buscar pelo que não sei, encontrar os personagens que sejam algo familiar e oposto a mim.

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©rafael coutinho

a: Quais sao seus trabalhos já publicados?

R: Fiz a revista, “DRINK”, da coleção MIL. Fiz “Cachalote”, um livro com o Daniel Galera, e participei de algumas coletâneas, como a “Contos dos Irmãos Grimm”, da Desiderata, e “Bang Bang”, da Devir. Participei recentemente da SAMBA 3, coletânea de amigos de Brasília, e acabei de entregar minha parte em um projeto coletivo pra Lyon – França, chamado WEB TRIP. Publiquei histórias curtas na Folha de São Paulo, Piauí, e outras revistas, além da época de estudante, quando publicava bastante numa revista indie paulista chamada “Sociedade Radioativa”.

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a: Entendo que vc tem uma galeria de arte te representado, a choque cultural, em São Paulo. Conte-nos um pouco sobre essa experiência – o mundo das artes plásticas, seus quadros – inspiração, técnica, exposições, essas coisas que ocupam um artista.

R: Saí da Choque Cultural no começo do ano. Foram cinco anos de muito aprendizado e parceria, e sou muito grato por tudo que fizeram por mim e pelo meu trabalho lá, fiz amigos pessoais ali dentro e desejo toda sorte do mundo pra eles. Desde então confesso que não tive tempo pra procurar por uma nova galeria. É um mundo com regras diferentes do mercado editorial, esse da dita ALTA ARTE. São colecionadores, curadores e galerias que entram no lugar das editoras, distribuidoras, revendedores, lojas. Tenho uma forte ligação com esse mundo, com o universo criativo e a poesia em torno das telas, da pintura, e tenho muito dificuldade de fazer as duas coisas conversarem intimamente.

Do ponto de vista de linguagem, não tenho mais dúvidas que sejam universos com um potencial de expressão muito distintos, e consigo sentir o limite entre os meios quando estou envolvido em cada um. Acho que é por isso que busco pelos dois com propósitos específicos, pra que as limitações do meio não me limitem também. Sou ainda um aprendiz em ambos, acho, tenho muito pra estudar e assimiliar. A coisa toda vem com seu aprendizado mesmo, cada momento que volto pra pintura entendo um pouco mais, chego um pouco mais longe. Depois de projetos tão cumpridos de quadrinhos, voltei pra pintura com um desejo narrativo muito latente, por exemplo, e esse novo projeto fogo fácil é fruto disso. Passei a encarar a pintura como uma história a ser contada, e percebi que agora olho pra ela completa, e não mais pra cada pintura individualmente. Do lado dos quadrinhos, passei a encarar o desenho pelo prisma das massas de cor também, o Beijo Adolescente foi bem junto com a pintura por exemplo. Enfim, é assim que ando, não sei fazer de outra forma e tenho pouco interesse em escolher e definir grau de importância no que faço.

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©rafael coutinho

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©rafael coutinho

a: Conte-nos sobre seu projeto ‘o beijo adolescente‘, como foi usar o catarse para subsidiar esse trabalho?

R: Usar o Catarse para ‘O Beijo Adolescente’ foi mais uma saída, a mais sensata até agora na minha vida de artista. Comercializar e vender um serviço é algo complexo que tratamos com uma naturalidade cruel, essa que envolve cobrar e fazer. Não acho que artista seja mais um profissional como outro qualquer não, é uma profissão meio convulsiva, principalmente no Brasil. Se você é autônomo, freela e seu conteúdo é esse mais artístico, menos voltado pra massa, é algo que exige uma disciplina e trabalho desumano. Tenho que manter uma vigília diária em cima de tudo que faço, senão cai. A estrutura em torno de um artista adulto é muito complexa, e é preciso construir um sistema de regras e controle muito precisos pra que a coisa ande. Existem milhares de formas disso acontecer, mas é sempre muito. O Catarse veio desse desejo de cortar com as amarras que vinham decidindo pra mim o que eu faria com o meu trabalho e a forma como ele funcionava. Percebi alguns problemas na conclusão do projeto, no funcionamento do sistema de financiamento coletivo, e aprendi que é preciso ter um controle firme em todas as etapas, pra que no fim todos recebam o que compraram e não haja erros. Mas quero fazer outros, é algo que realmente revolucionou a forma como arte é produzida no mundo.

a: Achei o espetáculo ‘as jóias‘, seu e do Laerte, muito bom – eclético – erudito e simples, na mosca! Pode nos contar como esse trabalho/processo se deu?

R: Fomos convidados pra participar do projeto “Autores em Cena”, curado pelo amigo Marcelino Freire em parceria com o Itaú Cultural. Em tese, a coisa era pra acontecer de forma mais simples, eu “dirigindo” a peça e meu pai lendo algo do trabalho dele, meio como uma adaptação da obra do autor pro teatro. Decidimos juntos fazer algo novo, do zero, fez sentido pro momento em que estamos em nossas vidas, buscando frentes novas, batendo um tanto de cabeça com nossos afazeres e desejos profissionais diários (e de uma forma geral, buscando por soluções em parceria, eu e meu pai, o que tem sido muito bom também). Admiro muito meu pai e já brincamos de fazer coisas juntos no passado, nos damos bem falando essa língua criativa, acho. Bom, daí que começamos a ensaiar, dirigidos pela Fernanda D’Umbra, grande atriz, roteirista e diretora. Aí entrou mais gente, o Morris no som, minha mulher Marina Pontieri e a Flora Rebolo no figurino, enfim, um monte de outros muito talentosos pacas. Meu pai escreveu um texto, visto que o convite era dirigido pra ele e também pela naturalidade da coisa mesmo, e saimos com esse texto de humor divertido e ultra-crítico sobre esse momento reaça que vivemos em São Paulo, e como protagonista surgiu essa cantora de ópera, inspirada na personagem do Hergé, a Bianca Castafiore, que era claramente um reflexo das questões que meu pai vive atualmente, de gênero e militância, arte, vida. Meu papel era o do anjo, uma figura que envolvia a cantora numa mentira manipulatória rumo à sua execução, e foi muito divertido ir trocando de personagens, mas mantendo a safadeza do fato de ser o mesmo anjo, bem óbvio e assumido. Não somos atores, mas ambos sentiram a veia pulsar ali, é forte demais subir no palco e apresentar algo. Queremos fazer outras vezes.

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©rafael coutinho, originalmente publicado pela revista SAMBA#3

a: Esse trabalho TERROR, pra SAMBA3, ficou lindíssimo também, e num estilo bem diferente! isso é uma coisa que você busca, em seu trabalho de quadrinista – experimentar com estilos diversos?

R: Acho que sim… não é um plano de carreira, sabe? Não começo o dia dizendo: “hoje vou fazer algo completamente diferente”, tem mais a ver com o projeto, com o convite, com a ideia. Fazer histórias em quadrinhos ou qualquer projeto que seja tão longo quanto (pintar um série de telas em torno de uma ideia, por exemplo) me exaure, essa é a verdade. Saio daquilo esgotado, como se tivesse secado um fosso de ideias sobre aquilo. Meu instinto é de fazer algo diferente, senão enlouqueço. E não tenho esse preciosismo que alguns artistas têm com o próprio estilo, ou a busca por uma solução completa, homogênea. Esse tipo de reflexão é muito comum no nosso meio. Quando se é jovem, o cara quer a qualquer custo desenvolver uma linguagem própria, seja por reconhecimento ou amadurecimento. É como um selo de autenticidade, uma marca particular. Já na fase madura ou “profissionalizada”, o sujeito precisa manter a tal marca, fortalece-la, garantir o fluxo de trabalho em torno daquilo que ele acredita ser SEU, e aos poucos isso pode ou não virar uma prisão.

Talvez porque eu tenha visto isso dentro de casa, pelo meu pai, mas acho que criei uma ideia bem fluida sobre isso. Não nutri o desejo incondicional de me tornar quadrinista ou pintor ou animador. Queria que fosse bom, queria amadurecer, e queria completar os projetos do mesmo jeito que comecei, acho que essa era a minha maior meta. Comecei fazendo projetos cumpridos, minha primeira animação foi com 22 e me tomou seis meses de trabalho. No final não aguentava mais, mas foi muito bom ver completo, ver que eu conseguia fazer, e o volume de trabalho me obrigava a praticar à exaustão aspectos do meu traço que me deixavam inseguro antes de começar. Acho que vou mais por aí hoje em dia: vou fazer isso aqui até o fim e vou focar em elementos que me deixem inseguro, tipo “matar o monstro”. Lembro muito da minha primeira história longa, a “BINGO”, publicada na Sociedade Radioativa, revista indie aqui de Sampa. Lembro do medo que sentia, um medo paralizante. Sabia que se eu fizesse, não teria mais como manter protegida a expectativa em torno daquela ideia, seria o que saísse, e eu teria que assumir aquilo, com todas as deficiências que estivessem ali. Era realmente mortificante, eu ficava repitindo enquanto desenhava: “sem medo”, “sem medo”. É difícil pra quem não desenha ou trabalha com arte entender o volume de responsabilidade e coragem que gira em torno de “fazer algo”. Tenho medo até hoje, medo de assumir uma visão a respeito de um tema, de correr esse risco, de não ter como apagar o que foi feito depois. Hoje em dia entendo um pouco melhor que o resultado mais significativo nisso tudo eu só vou entender depois de alguns livros e algumas exposições, não sou capaz de controlar isso. O que consigo entender é que preciso fazer, sinto essa necessidade, e sofro muito quando não realizo essas obsessões.

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Entrevista com Eleonora Rosset – Uma psicanalista vai ao Cinema

Um blog de cinema comandado pela psicanalista, Eleonora Rosset, desde 2009. Vale a pena visitar o blog e ler suas análises e comentários sobre os filmes.  O blog já é um dos melhores sobre o assunto, não só pela autoridade de Eleonora no assunto mas também por seu envolvimento com uma trama, trazendo os temas para um enlace da vida real http://www.eleonorarosset.com.br/

Por que um blog de cinema?

Eleonora: Porque eu sou apaixonada por cinema desde criança. E como eu também gosto de escrever, uni dois prazeres no blog.

Como e quando surgiu a vontade de realizar seu blog?

Eleonora: Tudo começou em 2009 quando minha amiga Marta Suplicy, candidata ao Senado, lançou o MPOST , jornal na internet que acompanhava a campanha dela. Ela me convidou para fazer uma coluna de cinema porque eu havia escrito um texto sobre o filme do Woody Allen(“Vicky, Cristina, Barcelona”) que ela tinha gostado. Eu hesitei, porque achava que era muita responsabilidade prometer escrever um texto por semana. Mas, ao contrário do que eu pensava, gostei da experiência e do retorno de pessoas que liam meus textos e  me incentivavam a continuar escrevendo.

Como é seu ritmo de trabalho no blog, quantos filmes assiste por semana?

Eleonora: Eu faço duas postagens por semana. Às vêzes mais, por exemplo, quando é época do Oscar e os filmes são lançados no Brasil em cima da hora. Acompanho também os outros prêmios internacionais, SAG Awards, Globo de Ouro, BAFTA, contando como foi a noite da cerimonia e quais foram os atores e filmes premiados.

E no Face coloco todo dia alguns comentários sobre o filme da vez. Isso estimula as pessoas a ler a minha resenha no blog e a ver o filme no cinema. Acho importante criar um gosto pelo cinema nas plateias brasileiras. Faço também reportagens sobre os festivais de cinema no Face, como Cannes, Berlim e Veneza. Estou sempre falando de cinema no Face e as pessoas gostam.

E vejo pelo menos três filmes por semana. Porque eu só coloco filmes dos quais eu gostei. Claro que há filmes maravilhosos e outros nem tanto. Mas meu objetivo é fazer com que as pessoas vejam mais filmes para, inclusive, desenvolver um gosto e conhecimento pelo cinema, que eu acho que é a mais contemporânea das artes, podendo se utilizar de todas as outras.

Você é psicanalista, quais a relações entre psicanálise e cinema?

Eleonora: O cinema e a psicanálise sempre se deram bem. Há diretores que usam as ideias da psicanálise para contar as histórias de seus filmes que assim ganham profundidade e relevância. Bunuel, Bergman, Alain Resnais,Woody Allen, Lars Von Trier, Michael Haneke, Terrence Malik e outros fizeram filmes antológicos e contribuiram para divulgar ideias psicanalíticas. Mas para mim, acho um pouco chato para o público leigo, ler interpretações psicanalíticas de filmes. Isso é interessante para os profissionais, nossas revistas e congressos.

Qual a influência do cinema na sua vida e no seu trabalho?

Eleonora: Eu não consigo viver sem o cinema. E é difícil acompanhar meu ritmo porque, se eu pudesse, veria quase todos os filmes em cartaz e ainda reveria muitos filmes antigos. Gosto de fazer maratonas de diretores ou de atores e atrizes. Mas tem o meu trabalho no consultório, a familia, os amigos, a vida fora do cinema. Vejo menos do que gostaria mas aproveito demais do cinema. Cinema é sonho. E sonho é matéria prima da psicanálise. Gosto de pensar que vejo os filmes através de uma personalidade moldada pela psicanálise e portanto, algumas das coisas que me atingem durante o desenrolar do filme, é como se eu estivesse numa sessão com uma pessoa. Acolho dentro de mim e quando vou escrever  aparecem elaborações provocadas pelo filme em mim.

O cinema me enriquece. É uma janela privilegiada sobre a natureza humana e o mundo em que vivemos.

Grafiteiro Banksy monta banca em parque e vende obras a US$60 em NY

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Colecionadores de arte e turistas encontraram uma pechincha no fim de semana no Central Park, em Nova York, onde o famoso grafiteiro britânico Banksy montou uma banca para vender pinturas a 60 dólares – preço muito inferior aos mais de 150 mil dólares que uma obra dele deve obter em leilão neste ano.

“Ontem montei uma banca no parque vendendo telas autênticas, 100 por cento originais, assinadas por Banksy”, disse o misterioso artista em uma postagem no seu site na segunda-feira. A banca, mostrada em um vídeo no seu site, tinha obras do artista, inclusive pinturas de animais, uma bailarina e um elefante com um foguete atado ao seu corpo. Uma placa dizia “arte com spray”, e outra informava o preço: 60 dólares.

As vendas eram feitas por um homem grisalho, de boné, que não é Bansky. A primeira venda, como mostra o vídeo, foi para uma mulher que levou duas obras pequenas para seus filhos, mas só depois de barganhar um desconto. Uma neozelandesa comprou duas pinturas, e um comprador de Chicago que precisa de “algo para as paredes” da sua casa nova levou quatro telas. O vídeo indica que os compradores não tinham nem ideia de que se tratava de originais de Banksy.

“Arrecadação total do dia: 420 dólares”, disse o site, acrescentando que a oportunidade não se repetirá. No começo deste mês, Banksy – pseudônimo de um artista cuja identidade real é desconhecida – anunciou que exporia seu trabalho pelas paredes de Nova York. O grafiteiro ganhou fama na década de 1990, fazendo estênceis provocativos e irônicos sobre a realidade social nas cidades de Londres e Bristol. Em 2010, ele apareceu no documentário “Exit Through the Gift Shop”, mas sua voz e seu rosto foram manipulados para não permitir a identificação. Um mural grafitado pelo artista, intitulado “Trabalho Escravo”, retirado de uma parede em Londres, foi vendido neste ano por 1,1 milhão de dólares. Outra obra, chamada “Menina com Flor”, encontrada em 2008 no muro de um posto de gasolina em Los Angeles, deve arrecadar entre 150 mil e 300 mil dólares num leilão a ser realizado em dezembro em Beverly Hills.

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Entrevista com Marça Aquino – O cinema e a literatura

Em um país onde se lê em média apenas quatro livros por ano, o escritor brasileiro Marçal Aquino considera ter um atalho para difundir sua obra. “Tenho um jeito especial. Meus livros são adaptados para o cinema. Isso é muito importante se você quer atingir as pessoas”, disse Aquino à Reuters na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha.

Seu romance mais recente, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, recebeu excelente críticas e vendeu 25 mil exemplares desde o lançamento, um best-seller para os padrões brasileiros, embora seja um número pequeno para os padrões internacionais. Já a adaptação cinematográfica homônima foi vista por milhões na TV. É a terceira obra de Aquino adaptada para o cinema. Seus roteiros já lhe valeram vários prêmios no Brasil e no festival de Sundance, nos Estados Unidos.

O autor também já publicou livros infantis e romances policiais. “Não sei quem lê meus livros”, disse ele. “Mas com a TV você pode dizer quantas pessoas assistiram e até quem assistiu. Esse é um grande desafio. Você precisa apanhar as pessoas.” “Eu Receberia as Piores Notícias…” se passa em Santarém, no Pará, descrevendo o relacionamento de um fotógrafo com uma ex-prostituta casada com um pastor evangélico. As tensões entre garimpeiros e mineradoras, a corrupção e a traição são temas subjacentes. “Estive lá como jornalista na década de 1980 e vi a corrida do ouro, a prostituição, todas as realidades de uma cidade pequena”, disse ele. “Ao escolher aquela locação para a minha história, eu podia falar sobre a violência de lá e como o amor pode se desenvolver em um ambiente desses”

Quando voltou ao interior do Pará para escolher as locações do filme, anos atrás, ele descobriu que “nada havia mudado”. Até por isso, pouca gente deve ler o romance na região.

“Dá para pensar em alguém no Norte do Brasil lendo livros? Não dá para ler quando você precisa se preocupar com o que comer”, disse ele. Aquino, de 55 anos, fez carreira como jornalista, mas se lançou na literatura aos 26 anos, publicando por conta própria um volume de poesias. Para o autor, a falta do hábito de leitura no país se deve a deficiências no sistema educacional. Ele mesmo nunca teve livros na casa onde foi criado com nove irmãos, em Amparo, a 120 quilômetros de São Paulo. Ele disse que por muito tempo considerou que não haveria chance de mudança nas condições de vida no país, mas que depois dos protestos de junho surgiu um lampejo de esperança. “Há muito mais para vir”, disse Aquino. “Não dá para prever o que vai acontecer. Essa é a beleza da coisa. Mas pela primeira vez na minha vida espero pela grande mudança.”

Sexo nosso

Nossa. Que jeito à queima roupa de começar esta conversa. Mas não tem outro. Os tempos hoje são tuiterísticos, acelerados e diretos, como registra, aliás, a famosa piada do coelhinho, em pleno desfrute de seu harém “tá bom, não foi?” (note-se: essa frenética interpelação às orelhudas e macias parceirinhas, sempre ecoa quase uma centena de vezes, antes de a piada acabar de ser contada.)

Ou aquele chiste, no qual uma impaciente namorada termina por DM (direct message, no twitter) seu último e deletável relacionamento. “Ai, gato, foi legal enquanto durou. #partiumudanças.”

Assim, a seco. Como rapadura sem caldo de cana, telegrama sem abraço ou pão dormido sem manteiga. Vai um sexo aí, rima com anúncio de sandubas naturebas, vendidos por ambulantes roucos e sudorentos, nas sempre lotadas praias cariocas.

Sem contar que “pegar” hoje é um verbo que não tem nada a ver com pegar o ônibus, o filho na escola, uma carona com o colega de trabalho. O papo é mais ou menos esse, entre a galera acesíssima da geração y, depois de — não se sabe quantos — energéticos misturados a bebidas destiladas, nas baladas: “E aí, brô, pegou muitas?” E o outro: “Ih, mano, contei 11, acho.” “Pô, eu te passei véio, 15 minas tá bom pra você?”

Questões semelhantes comicham entre meus afoitos neurônios. Será que houve mesmo uma dissociação e esquartejamento ontológico-afetivo entre sexo e amor. Algo do tipo: “É pra agora ou pra viagem” nos fast-junk-foda-se dos McComes da madrugada.

A razão de tamanha reflexão e curiosidade adveio de fato viralizado em todas as mídias, sobretudo nas redes sociais. O leilão de uma exemplar boneca inflável, a Valentina (metafórico nome de protagonista de ficção científica, em versão ocidental tridimensional do gênero shoujo mangás (do japonês 少女, menina) presente nos excitantes quadrinhos japoneses.

Lances para o acesso à sua exótica virgindade, seu almejado hímen de cyberskin, — pele artificial desenvolvida pela NASA, quase idêntica à humana — a certa altura ultrapassaram, a cifra de R$ 100 mil — conforme notícias nos jornais.

Olhos verdes, cabelos castanhos, boca carnuda, seios grandes e pele sedosa. Esta é Valentina. Irretocável, sublinhariam alguns. Não. Sugere prosaicos encaixes de articulações, frisariam outros.
“No site de compra, você pode escolher cor de cabelo, de olhos, bunda, estatura, forma física. Você monta como quiser”, revela Rodolfo Elsas, sócio do buscador on-line Sexônico e organizador da Mostra Internacional de Bonecas Infláveis, em SP.

Para você e suas ilações tremularem nas bases sinápticas de sua atônita massa encefálica, saiba que a feira de bonecas infláveis também costuma oferecer modelos masculinos acenando enleios com Barack Obama e Justin Bieber.

Decididos a realizar este cobiçadíssimo fetiche, os interessados precisaram se cadastrar no site e dar um lance pela virgindade da boneca.

O feliz ganhador da noite inesquecível, porém, depois de consumada a conjunção carnal-emborrachada, tem que devolver, aos prantos, que seja, a heroica Valentina ao proprietário de origem, compromisso assegurado em contrato previamente firmado junto ao seu dono (travestido, neste particular, de gigolô pós-moderno). Infelizmente a partir de então, o futuro de Valentina — e o de outras bonecas disponíveis no site — como garota de programa já está selado.

Acompanhamos também a disputa internacional pela jovem catarinense Catarina Migliorini, de 20 aninhos, cujo anódino hímen foi arrematado por um empresário oriental. O leilão foi finalizado em R$ 1,5 milhão.

Está bom para você? Vai um sexo aí?

Praticidade, fundos de investimento concupiscentes, loterias federais genitais, grande prêmio nacional intravaginal, ou maxi herança erótica-programada.

É desse modo que os enlaces e acordos acontecem. Sem mais delongas. Na verdade, quando se começa a tricotar assuntos correlatos, unem-se pontos inusitados e fluxos associativos que entretecem situações afinadas.

Paralelamente ao desfile de bonecas infláveis, nos extasiamos com projeções holográficas mirabolantes, como as exibidas nos shows da cantora virtual Hatsune Miku, que conduzem ao delírio milhares de obcecados fãs. O projeto concebido pela Crypton Future Media, no Japão, estrutura-se, por equivalência, a um mega-anime pluridimensionado.

Especulemos em uníssono: e se dispuséssemos neste instante de um espelho refletindo a exótica situação, como numa variante tautológica do tema. Mocinhas de carne e osso fazendo o possível e o impossível para se transformar em bonecas na vida real. Como a já mundialmente conhecida adolescente ucraniana, Valeria Lukyanova, aspirante definitiva, depois de submeter-se a várias cirurgias plásticas, ao status de Barbie Humana.

Esta narrativa, embora atice zonas do nosso longínquo imaginário, não possui, entretanto nada de irreal, pois catalisa enredos transmidiáticos de storytellers contemporâneos. Parodiando a ficção, a Barbie também encontrou o seu Ken (boneco-gente ou rapaz embonecado ) no cotidiano. Se o casal será feliz para sempre é outra história, embutida em um destino indecifrável.

Vimos, portanto, que os trailers acima exibidos, de caráter sensório-experiencial, se constituem de elásticas e aparentemente infindáveis vertentes.

Novos ou velhos fatos, alguns deprimentes, bizarros, retorcidos, entranhados sem dúvida em carências psicossexuais de toda ordem, solidão e medos relacionais extremados.

Fato é que, como nos antigos álbuns de cartolina de figurinhas de recortar e montar, ou o desafiador encaixe de peças plásticas — vide as junções de partes de um cubo mágico — ou ainda a acoplagem de um minucioso quebra-cabeças, apresenta-se uma irrevogável e urgente questão. A cabeça, o tronco e os membros dos seres ditos humanos (aos quais por enquanto pertenço) precisam se casar de novo.

Como o café se cumplicia ao leite. O arroz com o feijão. A pipoca com o cinema. A fome com a vontade de comer. E o desejo — ah, o desejo… — com o tesão ( mas, por favor, que seja tesão de carne e osso, bem entendido).

Entrevista com Alex Viera – O revolucionário da internet

A Revista Prego é hoje um dos principais expoentes dos quadrinhos underground brasileiros. Em sua 6ª edição, a revista já contou com a participação de mais de 100 artistas e foi lançada em diversos pontos do Brasil e de fora dele (recentemente a revista foi apresentada ao público português e espanhol). Seguindo uma temática que remete tanto aos quadrinhos pirados da Zap Comix – publicação dos anos 60 capitaneada por Robert Crumb que é considerada hoje a pedra fundadora dos quadrinhos underground – quanto aos pôsteres para bandas de hardcore do californiano Raymond Pettibon – responsável pelas célebres capas dos discos “My War” e “Slip it In” (entre outras) do Black Flag, a Prego reúne o que há de mais ousado e criativo nos quadrinhos da língua portuguesa. Em uma conexão Porto Alegre/Vila Velha (ES), falamos com o editor da revista, Alex Vieira.

Como é fazer quadrinhos underground no Brasil? Que condições são encontradas por quem se propõe a publicar materiais do gênero?

Alex Vieira: As condições são as mais precárias possíveis. Na verdade, não é preciso um grande aparato para se produzir quadrinhos, mas assim que ele está pronto a maior dificuldade é na parte da distribuição. Para que uma publicação não encalhe é preciso muito empenho.

Com quantos artistas conta a prego atualmente? Como funciona a seleção e como as decisões são tomadas dentro da revista?

A.V.: Já participaram cerca de 100 artistas desde a número um. Nós fazemos uma convocatória pela internet e assim convidamos novos artistas para participar. Também fazemos convites diretos para alguns artistas. Não temos uma equipe que trabalha full time na Prego (somente eu e mais um assistente aqui na loja/estúdio), mas quando vamos fechar uma edição, várias pessoas fazem parte do processo.

vibefoda.jpg“Tô numa vibe foda” – quadrinhos do gaúcho Diego Gerlach.

A revista está recém na 6ª edição e já evoluiu muito em sua estrutura. Está sendo publicada com mais páginas e com uma qualidade maior nos materiais. Como ocorrem essas melhorias (que envolvem custos maiores) e de que forma o público reage a elas?

A.V.: A cada Prego eu procuro melhorar algo em relação a edição anterior. A partir da Prego número 5 resolvi mudar o papel do miolo e da capa pra dar uma nova forma à publicação, visto que se iniciava uma série de publicações temáticas. Acredito que deu certo, pois foi muito elogiada, assim como a última edição. No geral, a resposta do público tem sido boa.

A última edição da revista Prego foi lançada em diversos estados do sudeste brasileiro e no sul. De que forma vocês conseguiram atingir um público tão grande sendo que normalmente publicações do tipo acabam limitadas ao espaço regional?

A.V.: Um lance que procuro deixar claro na Prego é que ela é uma publicação meio nômade. Eu vivo no Espírito Santo, mas acredito que as pessoas que participam da revista no sul por exemplo, fazem parte da publicação tanto quanto eu, então eles podem fazer lançamentos e distribuirem a Prego por aí. Todos os colaboradores tem direito a pegar a revista a preço de custo para revendê-la em sua cidade. Além disso, procuro participar sempre de eventos relacionados à cultura independente, publicação e artes visuais, aumentando a nossa rede de contatos pelo mundo.

Alex Vieira2.jpgAlex Vieira e a 6º edição da revista: “edição drogada”.

E como surgiu a oportunidade de lançar a Prego em Portugal? De que maneira a revista foi recebida pelo público europeu?

A.V.: Já fazia algum tempo que eu estava em contato com a Associação Chili Com Carne, de Portugal. Eles organizavam a Feira Laica, que acontecia duas vezes por ano com e me convidaram para participar da Laica de Natal que aconteceu no Espaço Maus-Hábitos na cidade do Porto. Escrevi um projeto para a Secretaria de Cultura do Espírito Santo e consegui o financiamento das passagens. Assim distribuí a revista por lá e conheci vários colaboradores, editoras e selos que trocam material com a Prego até hoje. Esse ano pude voltar a Lisboa e fizemos um lançamento da Prego #6 juntamente com o fanzine Mesinha de Cabeceira, de Portugal. Rolou um bate-papo e foi bem legal. Também participei do Gutter Fest em Barcelona, que foi um evento que aconteceu pela primeira vez e reuniu autores independentes de diversas partes da Europa. A recepção foi ótima, tinha gente de lá que já tinha acessado a revista e agora teve chance de adquirir diretamente. Nessa última edição coloquei legendas em inglês para facilitar esse intercâmbio.

revistaprego_ilustra de lobo.jpg“Ejaculator” do artista Lobo.

Os quadrinhos da Prego seguem uma estética particular. A psicodelia, que se encontrava em um ponto de desgaste, parece ter encontrado renovação na estética punk. É correto afirmar que a prego faz quadrinhos punk/psicodélicos?

A.V.: Nas últimas edições fui deixando de lado o slogan inicial da revista, mas obviamente nossa veia punk e psicodelica continua ativa. Não vou dizer que é correto afirmar que fazemos quadrinhos punks psicodélicos para não nos prender somente a isso, mas também não vou negar que os fazemos.

Indique outras publicações independentes (ou não) interessantes para se conhecer os quadrinhos underground. Podem ser tanto brasileiras quanto gringas.

A.V.: Entre no nosso site que você vai encontrar várias publicações independentes nacionais e importadas além da Prego! www.revistaprego.com
Obrigado pelo espaço!

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25 mil imagens de obras de arte em alta resolução para download gratuito

A Girl with a Watering Can

 

A National Gallery of Art (Galeria de Arte Nacional), localizada em Washington, Estados Unidos, em parceria com a fundação Samuel H. Kress, disponibilizou para download gratuito 25 mil imagens de obras de arte em alta resolução. As imagens estão divididas por categorias ou podem ser consultadas por  meio da busca pelo nome do autor ou título da obra.

 

Artista e obras famosas como “The Japanese Footbridge” e “Woman with a Parasol”, de Claude Monet,  “Ginevra de’ Benci”, de Leonardo da Vinci, “The Dance Lesson”, de Edgar Degas,  “Self-Portrait” e  “Gogh Roses”, de Vincent van Gogh, “The Alba Madonna”, de Raphael, “A Girl with a Watering Can”, de Auguste Renoir,  “The Railway”, de Edouard Manet , “Children Playing on the Beach”, de Mary Cassatt,  “Girl with the Red Hat”, de Johannes Vermeer, “At the Water’s Edge”, de Paul Cézanne,  “The Adoration of the Magi”, de Fra Angelico e Filippo Lippi, “Portrait of a Lady”, de Rogier van der Weyden,  “Portrait of Lorenzo di Credi”, de Pietro Perugino, e “The Emperor Napoleon in His Study at the Tuileries”, de Jacques-Louis David, fazem parte do acervo.

Para fazer o download basta clicar sobre uma das setas localizadas abaixo das imagem desejada e mandar salvar. Existem duas opções de download, em média resolução (1200 pixels — uma seta), ou em alta resolução (3000 mil pixels — duas setas).

Clique no link para acessar:  25 mil imagens de obras de arte em alta resolução para download gratuito

Os dez melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pedimos a 10 convidados — escritores, críticos, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de Carlos Drummond de Andrade. Cada participante poderia indicar entre um e 10 poemas. Coincidentemente, não houve votos repetidos, o que só evidencia a grandeza e a vastidão da obra do poeta mineiro. Desde de 2011, Carlos Drummond de Andrade ganhou o Dia D, inspirado no Bloomsday, o dia dedicado ao escritor irlandês James Joyce. A data, 31 de outubro, aniversário do poeta, é comemorada no Brasil e em Portugal.

A Máquina do Mundo 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Nunca há testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o
convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes
que não tinha entrado na história.

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.